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Sábado, 11 de Julho de 2009

LIVRO CLIP

“Álvares de Azevedo, Machado e Monteiro Lobato. Escritores consagrados em versão high-tech.”
Por Elenilson Nascimento
A Internet pode contribuir para que os autores consagrados da língua portuguesa sejam mais bem conhecidos. Um trabalho iniciado pelo jornalista Luiz Chinan mostra que a resposta é positiva. “Entendi que poderia haver uma fusão entre todos esses universos. Universo literário, animação, interatividade, dentro da Internet. Além disso, colocar a Internet a serviço do conteúdo, pois isso é difícil hoje”, explica Chinan, idealizador do projeto.
Para atrair a atenção dos jovens, o jornalista criou há três anos o Livro Clip. São pequenas adaptações animadas de obras-primas da literatura. E dessa forma adequar a linguagem, através de música e outras ferramentas para aproximar o jovem do século 21 com escritores consagrados e suas obras. Disponibilizados gratuitamente na Internet, as animações também caíram no gosto de professores e amantes da literatura. Hoje o portal na Internet tem 150 obras adaptadas e cinco mil professores cadastrados.

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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

OBAMA, UUUUUUUUÍ!

“A tal bunda que teria "virado a cabeça" de Obama na reunião do G-8.”
Por Elenilson Nascimento
Hoje, 10/07, uma foto dos presidente dos EUA, Barack Obama, supostamente admirando a bunda uma brasileira, juntamente com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tem causado grande repercussão nos Estados Unidos. A cena, capturada pelo fotógrafo Jason Reed, da agência Reuters, circulou os diversos blogs políticos dos EUA, sempre com legendas de duplo sentido. E nós, aqui da LITERATURA CLANDESTINA, não iríamos deixar por menos.
E a tal bunda que teria "virado a cabeça" de Obama na reunião do G8 é de uma brasileira, de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e tem apenas 17 anos. A dona da bunda chama-se Mayara Rodrigues Tavares, representante da Unicef, o “Fundo” (*tudo a ver) das Nações Unidas para a Infância.
A emissora ABC exibiu um vídeo para tentar amenizar a situação, onde mostra que o presidente americano (*coitadinho) estava ajudando uma outra jovem a descer um degrau quando foi clicado olhando para baixo (*ou para a bunda?), na direção de Mayara. Já Sarkozy parece ter sacado o lance.
Já o jornal Drudge Report, que ficou famoso por ser o primeiro a publicar sobre o escândalo de Bill Clinton com Monica Lewinsky, cita a foto como “o segundo pacote de estímulo” do presidente Obama. O Examiner ressalta a idade da garota, apenas 17 anos, e compara a imagem de hoje com a de George W. Bush encarando uma jogadora de vôlei da seleção americana durante a Olimpíada da China. Quanto a mim, adoro essas histórias!
Foto de Obama supostamente “observando” bunda de brasileira gira o mundo.
Mayara Tavares e outros jovens do “Junior 8″ acompanharam a delegação do G8.
Assista ao vídeo abaixo (em inglês), onde a ABC tenta amenizar o lado de Obama e diz até que o Sarkozy é o verdadeiro tarado. Reparem nos repórteres fazendo gozação:

Watch CBS Videos Online
Ou clique abaixo e confira outra emissora gringa também fazendo gozação:

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Terça-feira, 7 de Julho de 2009

ENTREVISTA COM O POETA E ATOR ARTUR GOMES

“Essa indústria cultural que nós temos massificada e comprometida com o que há de mais medíocre, não pode ser chamado de mercado de arte, principalmente, a indústria fonográfica.” (A.G.)
Em junho do ano passado publiquei um pequeno texto na revista Cult em que escrevi o seguinte: “O poeta é o contador de sua própria história, da história de seu ser e de seu existir. O poeta conta. Conta e canta”. E talvez, por causa disso, esse texto venha servir agora para descrever um dos mais criativos, inteligentes e sociáveis poetas contemporâneos, tão criativo quanto desconhecido do público – até que o achei perdido no Orkut e uma sincera admiração de imediato passou a ser cultivada.
Artur Gomes
(Cacomanga-RJ, 1948), poeta e ator que desenvolve com a banda “Fulinaíma” um trabalho de pesquisa das mais diversas correntes poéticas e musicais brasileiras, aliando poesia à ritmos como folias, reggae, blues, rock, balada, canto e poesia falada. É como se a escolha da sua poesia apontasse para uma recusa fundamental e, aparentemente, e só aparentemente, paradoxal: a de uma poesia, para dizer com o João Cabral, marcada por uma necessidade aprioristicamente “poética” (mas aqui as aspas são indispensáveis) neste mundo de asfalto.
As verdadeiras ideias de um poema não são as que ocorrem ao poeta antes de escrever o poema, mas as que depois, com ou sem sua vontade, com ou sem vírgulas, se depreendem naturalmente da sua obra. E no caso de Artur é possível encontrar na sua poesia uma série de referências culturais, uma espécie de mapa, uma geografia poética. Mas, a relação entre poema e letra se triparte – pelo menos – em planos que podemos denominar assim: o teórico, o cultural e o contemporâneo. “Se a temática social, política e erótica já acompanha o meu trabalho há um bom tempo, acredito que dos anos 90 para cá outras referências passam a fazer parte desses enfoques, a própria rede virtual tem de certa forma me oferecido bastantes subsídios para alguns poemas”. E esse é o Artur Gomes, o poeta verborrágico.
Em sua inquietude, o poeta, impregna o mundo com o som de poemas no cotidiano, quando os torna existência em sua voz. O valor deste trabalho poético e musical ganha maior intensidade quando inserido no contexto da nossa sociedade, no qual a poesia quase não tem espaço nem estudo - nem mesmo nos bancos das elitizadas faculdades. E o resultado desse trabalho pode ser conferido no CD “FULINAÍMA SAX BLUES POESIA”, lançado em 2002 com edição esgotada. E no CD “FULINAÍMA/OUTRAS VOZES OUTRAS FALAS”. Em suma: a arte que assume Artur Gomes em seus versos e em sua vida é a arte da palavra em movimento. Nessa entrevista exclusiva à comunidade LITERATURA CLANDESTINA, Artur Gomes fala sua poesia, do existir e exigir poeta, da indústria do entretenimento e da autoridade por parte das editoras. Quanto a mim, quando crescer, quero ser igual a Artur Gomes.
ELENILSON – Insopitável necessidade de emergir. Todos nós que vivemos soterrados em tantos "eus" sentimos ânsias de ar, de sol, de revelação, de comunicação. A arte ajuda o homem a se aceitar, a compreender o mundo que o cerca, a se aproximar de Deus. A alma humana, como as baleias, vive, mas precisa vir à tona para respirar. Então, o que o poeta
Artur Gomes pensa da arte?
ARTUR – Meu caro Elenilson, em primeiro lugar é um praz
er estar aqui. Ainda mais hoje que abro às 19:00 h no Sesc Campos a exposição “Aldeia Afro Tupy” com um olhar sobre as questões afro indígenas brasileiras. Eu, afro descendente com sangue direto dos goytacazes, NÃO SEI QUASE NADA DOS MEUS ANCESTRAIS, POIS FORAM TODOS EXTERMINADOS, não restou sequer, nenhuma marca, nenhum vestígio, nem sombra dos olhos, nem carne e osso. Deram-lhes nome de rua, cidade, time de futebol, mas quem foram? Quem sou? A essas indagações, só posso responder com arte, com poesia. A POESIA, A ARTE QUE ME LEVA A SUPORTAR AS INJUSTIÇAS, AS MISÉRIAS DO MUNDO, MAS NÃO ME CONSOLA, NÃO ME CALA e sempre em busca desse auto/conhecimento até vão nascendo os versos, as canções, se tornando livros, CDs, exposições, recitais. A arte para mim é a possibilidade de respirar, de vir à tona, emergir do submundo a que nos relegaram e dizer ao mundo a que viemos.
ELENILSON – Talvez porque a única coisa que sei, e sei mal, sou eu mesmo. E se ninguém gostasse dos meus textos ainda assim os faria, pois nasci para isso. Não é tanto que eu goste de minha poesia, mas porque preciso dela, o que talvez venha a ser a mesma coisa. Mas, o fato é que, sem minha literatura ficaria doente, como um índio confinado numa cela, sem sua selva, seus rios, seus pássaros, sua liberdade. Encontro-me nela como peixe no mar. Ela me dá a impressão de que não é só do meu espírito, mas do corpo também. Eu a sinto, quase fisicamente. Os artistas são como as cigarras: estas morrem de tanto cantar; nós, se não contarmos, morreremos. E você, por que acha que tem de fazer poesia? É fácil ou difícil fazer versos?
ARTUR – Acho que de u
ma certa forma sim, mas não devemos estar muito preocupados com isto, acho que arte de uma forma geral é conceito, e literatura não é diferente, a nossa expressão é fruto do que pensamos, do que somos, e conseguimos através das palavras expressão a nossa visão de mundo e da própria arte que fazemos. A POESIA É FRUTO DA INDIGNAÇÃO HUMANA. E FELIZ DO SER HUMANO QUE AINDA PODE SE INDIGNAR E TRANSFORMAR ESTE ESTADO EM TENSÃO POÉTICA, EM ARTE. Vivemos num país carregado de contrastes, de injustiças sociais, afundado em misérias e a arte que o brasileiro produz não pode ou não devia ser apenas uma arte alienada, sem refletir o que somos, o que enxergamos debaixo das nossas narinas. Não há como não refletir sobre esta realidade e o poema que me mostrar é uma prova disso nua e crua.
ELENILSON – Sei que você vive intensamente literatura e poesia, criando relações com outras vertentes artísticas. Gostaria de saber como é a relação da sua arte com o mercado formal, se existe um interesse da indústria do entretenimento em agregar expressões artística
s como a sua e, lógico, se você tem esse interesse também?
ARTUR – Na verdade nenhuma, ela circula completamente fora desse “mal dito” mercado formal, que na verdade não é mercado de arte. ESSA INDÚSTRIA CULTURAL QUE NÓS TEMOS, MASSIFICADA E COMPROMETIDA COM O QUE HÁ DE M
AIS MEDÍOCRE, NÃO PODE SER CHAMADO DE MERCADO DE ARTE, PRINCIPALMENTE, A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. Circulo com minha arte por outras vias criando projetos em parcerias como a “Aldeia Afro Tupy” e outros; e tentando provocar o interesse de alguma instituição como o Sesc, que ainda se interessa por Arte e Cultura, por outros caminhos é impossível, mesmo porque não me sinto disposto a seguir por eles.
"eu sou drummundo e me confundona matéria amorosaposso estar na fina flor da juventudeou atitude de uma rima primorosae até na pele/pedra quando invocoe me desbundo baratinoe então provoco umbarafundo cabralinoe meto letra no meu verso estando prosae vou pro fundo do mais fundoo mais profundo mineralguimarães rosa" (Artur Gomes)

ELENILSON – Olha, eu não acredito mais na educação, nem na justiça, religião, políticas públicas. Não existe esse negócio de História brasileira, de 7 de Setembro. Só existem os espasmos de supostas mudanças a cada empréstimo recebido com a “moça” do balcão BPN. Tudo é ilusão. Somos filhos da puta da dívida. Somos espasmos dos empréstimos catalogados nos relatórios da ONU e do FBI. Mas eu sei que um artista (de verdade) consegue enxergar além desse senso comum. Infelizmente há muitos países dentro do Brasil. Para você, como artista, qual é o que vai pior?
ARTUR – Elenilson nesta tua colocação aí acima cabe lhe mostrar o poema “Brazílica Pereira”: “neste país de fogo & palha se falta lenha na fornalha uma mordaz língua não falha cospe grosso na panela da imperial tropicanalha/não me metam nestes planos verdes/amarelos meus dentes vãos/armados nem foices nem martelos meus dentes encarnados alvos brancos belos já estão desenganados desta sopa defarelos”.
ELENILSON – Eu não tenho tanto tempo de literatura, já publiquei 5 volumes, sendo que só um deles por uma editora e os outros de forma independente e, até hoje, me falta o chamado “puxa que livro legal” de algum leitor. Sou mais lido como cronista e articulista de jornais on-line do que em livros, pois quase ninguém lê no Brasil. A começar pelos escritores. Meu último romance “CLANDESTINOS” está com o Eduardo Agualusa, em Angola, mas não tenho nenhuma esperança que ele venha me dá algum retorno. Estamos tão longe. Como você encara essa autoridade por parte das editoras?
ARTUR – Acho que o caminho já tens, pelo menos o principal, consciência do que faz. Essa coisa de gênero, estilo, o tempo é quem molda, quanto mais escrevemos, mostramos, vivenciamos os resultados positivos, negativos, neutros, vamos incorporando ao nosso fazer as lições que naturalmente vamos tirando de cada uma dessas situações. POESIA, QUASE SEMPRE É ISSO MESMO, IMPULSO, INSIGHT. QUANTO MAIS EXERCITAMOS A ESCRITA MAIS ELA BROTA, PORQUE AS IDÉIAS ESTÃO LÁ ARMAZENADAS E SE RETIRAMOS ALGUMAS PARA A SUPERFÍCIE AS OUTRAS VÃO SE APROXIMANDO. Na verdade nós não temos muita consciência de tudo o que está submerso no “não ser” e através da escrita muitas vezes vamos extravasando sensações que há muito estão em nós, mas só a percebemos naquele momento. Vá em frente!
ELENILSON – A pergunta que faço nesse momento é a seguinte: o que conta quando se analisa uma obra literária de um autor iniciante, e se existe no mercado bons lançamentos desses autores “eleitos”?
ARTUR – Elenilson, essa análise depende muito do propósito de quem está analisando. E eu te remeto uma outra pergunta, quem neste país fora do mercado, não é um autor iniciante? Desde os anos 80 convivo com uma série de poetas, romancistas e contistas da pesada e que ainda não foram descobertos nem pelo público nem pelas editoras, SÃO RARÍSSIMOS OS NOMES DESTA GERAÇÃO QUE CHEGARAM AO GRANDE PÚBLICO E TODOS DE ALGUMA FORMA ESTÃO TRABALHANDO COM OUTRAS VERTENTES, como o caso do Marçal Aquino e Luiz Fernando Rufato, dois excelentes contistas.
ELENILSON – Além de poeta, você também é ator. Com qual das duas artes você se identifica mais? Apesar das duas atividades estarem intimamente ligadas. E uma curiosidade: porque seu grupo chama-se “Fulinaíma”?
ARTUR – Quanto a fato de ser ator e poeta, uma atividade alimenta a outra. Primeiro me descobri poeta e depois de algum tempo, já escrevendo bastante, me deu vontade de falar o que escrevia e não apenas mostrar o que estava escrito. Como muito cedo começaram a surgir alguns parceiros ligados a música, meus primeiros passos nos palcos foram falando poesia em show musicais. Depois é que veio o teatro e pelo fato também de ser muito inquieto e insatisfeito, comecei a criar projetos onde poesia, música, artes plásticas, artes gráficas e teatro estivessem se contrapondo ao mesmo tempo e num mesmo espaço. Fiz pouco teatro convencional, apesar de ter dirigido a “Oficina de Artes Cênicas” do CEFET-Campos por um bom tempo, até o ano de 2002, quando me aposentei do serviço público. Desde muito cedo o teatro que produzi foi de uma forma fundamentada pela poesia, o que faço até hoje. “Fulinaíma” é uma história longa, como conceito é a possibilidade das misturas, sons, falas, influências, raízes, antenas. Seria definir hoje o que é uma Macunaíma, qual a sua composição étnica e tentar reproduzir as tuas falas, festas e folias, o que sem dúvida seria um grande caldeirão de multiculturas.
ELENILSON – É muito triste, repito, é muito triste ver a educação e a literatura, por muitas vezes, afundando-se na imoralidade, com o lacre da desesperança selando o coração de todos (em especial desta juventude cada vez mais asneada com leituras de livros de auto-ajuda). Desesperança sim, compreendida em razão de uma posta na ordem do dia: impunidade. Cito a educação e a literatura, em especial, por serem os termômetros do ser humano, carros-chefe do nosso desenvolvimento. Como você encara esses novos tempos? Ainda podemos ter esperança nas artes?
ARTUR – Elenilson, no fundo sou uma pessoa bem otimista, mas não acredito que esta situação mude tão cedo, se houver mudanças talvez venha daqui há alguns séculos. É triste mesmo, lastimável, mas é a realidade que temos e sem perspectiva alguma de melhorias a curto ou médio prazo.
ELENILSON – Você acha que temos ainda esperança com a literatura no Brasil? Quais os seus autores preferidos? E com relação aos novos?
ARTUR – Esperança sempre temos, apesar de tudo e todos que contribuem para que o quadro atual permaneça como está ou se degenere mais ainda. Quanto aos autores e poetas que tenho como referências poderia citar uma lista enorme, mas me prenderei a alguns indispensáveis: João Guimarães Rosa, José Cândido de Carvalho, Machado de Assis, Lima Barreto, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Mário e Oswald de Andrade. Da turma mais nova, vale a pena conhecer Ademir Assunção, Marçal Aquino, Sérgio Santana, Armando Freitas Filho, Olga Savary, Paulo Leminski, Torquato Neto, Salgado Maranhão, Geraldinho Carneiro, Chacal, e por aí vai... O BRASIL TEM UM ELENCO FARTO DE GRANDES ROMANCISTAS E POETAS QUE NÃO DEVE A PAÍS NENHUM NESTE UNIVERSO.

Sendo poeta, ator, gestor e produtor cultural, ARTUR GOMES caminha por diversas vertentes artísticas. Assim como o mímico Jiddu Saldanha, Gomes sabe “arrancar do gesto/ a palavra chave/ da palavra a imagem xis/ tudo por um risco/ tudo por um triz”.
ELENILSON – A sua música sempre foi mais forte que a sua poesia?
ARTUR – O momento da criação para mim é um momento solitário, não importa para que finalidade esteja criando, para um show, um peça, um recital, ou para o branco do papel. Fundamentalmente sou poeta, escrevo poesia, e o ato de escrever é único. A música quem cuida são os vários parceiros e a intensidade, a sonoridade fica a critério deles. Não consigo com clareza ver o que é mais forte. O que é importante de se perceber é que a sonoridade nos invade muito mais do que a leitura silenciosa, por isso a música e a poesia falada são captadas por muito mais intensidade pelos nossos sentidos.
ELENILSON – Qual vai ser o próximo lançamento?
ARTUR – Elenilson, se tudo correr como pretendo, até o final do ano estarei lançando o livro “Juras Secretas” e o CD “Fulinaíma Outras Vozes Outras Falas”, uma continuação de um projeto que se iniciou em 96 quando com o meu parceiro Naiman criamos algumas canções e para as quais criamos esse conceito fulinaímico que é a possibilidade das misturas: som, palavras, ritmos, influências múltiplas servidas num mesmo caldeirão. ELENILSON – O que te levou a criar a “Mocidade Independente de Padre Olivácio” (Escola de Samba Oculta no Inconsciente Coletivo)?
ARTUR – Certa vez descobri que O DELÍRIO É A LIRA DO POETA SE O POETA NÃO DELIRA SUA LIRA NÃO PROFETA. Bem, em 95 criei para o Sesc-SP o projeto “Retalhos Imortais do SerAfim - Oswald de Andrade Nada Sabia de Mim”, como parte do projeto tem uma peça de teatro com o mesmo título, uma recriação do livro “Serafim Ponte Grande”. Nesta peça aparece pela primeira vez como enredo a “Mocidade Independente de Padre Olivácio”, já com alguns de seus personagens: Federico DuBoi, Federika Bezerra, mestre/sala e porta/bandeira e nasce o primeiro samba enredo: “Federika Bezerra: A Porta Bandeira Que BorTou Olivácio Doido”. Numa segunda encenação, em 1995 ainda, já surge o patrono Pastor de Andrade, o Açougueiro das Almas deste e de outros mundos. A “Mocidade” nasceu em Ouro Preto em 1990, exatamente no Bar da Lama, que é citado no samba. Estava eu lá, com alunos da então Escola Técnica Federal de Campos, na última noite de uma excursão e o delírio da garotada era tanto que comecei a pensar essa coisa do inconsciente aliada ao Carnaval, a orgia, não como as Escolas de Samba tradicionais, mas uma entidade carnavalesca sem limites ou fronteiras para a criatividade.
Sites de Artur Gomes:
http://arturgomes.zip.net
www.fulinaima.hpg.com.br
fotos: Artur Gomes/divulgação

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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

MEMÓRIAS DE UM HEREGE COMPULSIVO - O Vídeo

O livro inédito “Memórias de um Herege Compulsivo” do escritor baiano Elenilson Nascimento, fala de assuntos cabeludos, e é um ótimo livro de contos não muito convencionais. Incesto, sadomasoquismo, pedofilia, política petista, educação falida, família desfeita e relações tempestivas são os principais assuntos desse novo trabalho de Elenilson – um respeitável catálogo de perversões.

fonte do vídeo: Daniel Matos

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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

ENTREVISTA COM O EDITOR JIRO TAKAHASHI

“No mercado editorial profissional, de larga escala, não vejo grandes esperanças para um desconhecido talento solitário.” (J.T.)
Jiro Tahahashi é de Duartina, uma pequena cidade do interior de São Paulo, tem 59 anos, 3 filhas e 5 netos, é professor de Literatura e disciplinas correlatas, como Leitura e Produção de Textos, Estilística no Centro Universitário Ibero-Americano, no curso de Letras. É também tradutor e interprete desde 1979, com algumas interrupções por conta do trabalho editorial no Rio de Janeiro e em Londres. Estudou Direito e Letras, foi o primeiro editor da Editora Ática e atuou como gerente editorial da Ediouro, com passagens pelas editoras Abril, Nova Fronteira, Estação Liberdade e Editora do Brasil. “A discussão sobre a literatura contemporânea é fantástica, mas difícil de colocar em prática. Se a solução fosse fácil, com tantos jovens talentos surgindo, ela já estaria posta em prática. NO MERCADO EDITORIAL PROFISSIONAL, DE LARGA ESCALA, NÃO VEJO GRANDES ESPERANÇAS PARA UM DESCONHECIDO TALENTO SOLITÁRIO. Quando eu estava começando a trabalhar no ramo, tive a ousadia de escrever, por conta de uma questão com um escritor amigo, ao grande Érico Veríssimo, que tinha sido editor na Globo, de Porto Alegre. Nunca me esqueci do que ele me escreveu num bilhete, após resolver a questão que tinha sido o motivo do meu contato. Com palavras que não vou conseguir reproduzir aqui, ele me disse que MERCADO ERA LIGADO AO COMÉRCIO E QUE LITERATURA ERA LIGADA À ARTE. Que eu não me iludisse com o fato de grandes escritores não serem aceitos no mercado. E na época me lembro bem de que Clarice Lispector não vendia bem, fato que eu não conseguia entender. Mais tarde, felizmente ela passou a ter um grande espaço no mercado, mas infelizmente depois de sua morte. Quando me vejo diante de algum problema sério – como é o caso dos jovens escritores do presente -, acho que se apresenta um problema de coerção, isto é, de limites. Então, é preciso pensar nos extremos para romper os limites. De uma margem limítrofe, no extremo de expansão, de grande alcance, vislumbro uma grande esperança no mundo da Internet para os jovens escritores. O suporte "volume impresso em papel" não acabará nunca, e nem pode a meu ver. Mas, da mesma forma que fotografia, cinema, televisão e DVD podem conviver maravilhosamente, acredito que logo lalgo parecido deverá ocorrer com a literatura. Só falta alguém com a ousadia e o poder de mídia de INCOMPLETO”, disse o talentosíssimo e super-atencioso Takahashi à comunidade virtual LITERATURA CLANDESTINA, no meio dos seus vários compromissos, num debate pelo Orkut. Seguem abaixo alguns pontos da entrevista.
ELENILSON – Quem cresceu nos anos 80 se lembra bem de uma coleção de paradidáticos – nomezinho feio esse – chamada coleção “Vaga-Lume”. A coleção “Vaga-Lume” nasceu nos anos 70. Mas foi nos anos 80 que se tornou presença obrigatória nas escolas. Até hoje é utilizada, e o número de títulos cresce constantemente, numa proporção bem razoável. Você concorda de progressivamente as escolas abandonarem clássicos como Machado, Jorge Amado, Kafka, Dostoievski, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca e muitos outros para se dedicar exclusivamente a esses livros ordinários, por tudo inferiores, mas (assim julgavam eles) mais adequados à realidade dos alunos?
JIRO – Oi, Elenilson, é uma questão complexa qualquer uma que envolva um trabalho no sentido de se criar um gosto de ler. O gosto de ler envolve os campos cognitivo, afetivo e uma série de fatores pessoais, familiares, econômicos e políticos, embora não pareça em termos imediatos para o menino diante da possibilidade ou não de pegar um livro. Porém, vou me ater mais a questões mais práticas para tentar ser mais sucinto. Em primeiro lugar, posso ser muito questionado, mas não acho que Dostoievski nem Nelson Rodrigues tenham escrito pensando nos leitores de dez ou onze anos de idade (nem para os da época deles, quando os meninos eram mais "homens mais novos" ou "homens pequenos", muito antes das modernas teorias psicológicas que passaram a entender melhor a criança). Em segundo lugar, uma série como a “Vaga-Lume” não pretendia concorrer nem com os clássicos brasileiros, que eram editados na “Série Bom Livro”. Os títulos da “Vaga-Lume”, como “O caso da borboleta Atíria” ou “A ilha perdida”, eram destinados à iniciação de leitura, para aqueles que, na época, provavelmente estariam pegando seus primeiros livros de forma autônoma. Na época, a literatura infantil propriamente dita não tinha a força de hoje, e era quase toda inserida dentro dos livros de leitura para o antigo primeiro grau (de 1ª a 4ª série). Embora eu veja com certa reserva, há uma teoria de incentivo à leitura – a "teoria do degrau" defendida entre nós pelo saudoso José Paulo Paes, grande editor e poeta – que prega que um menino começa lendo livros de estrutura narrativa mais simples e pouco a pouco passa a exigir sozinho outros de estrutura mais sofisticada. Segundo essa teoria, dificilmente um menino começaria direto a ler um Machado de Assis ou Flaubert. Além da estrutura narrativa, ainda há o problema dos referênciais e do repertório de vivência do leitor. Uma curiosidade popular. Outro dia, o Reinaldo Gianechini estava num dos programas matutinos e, perguntado como ele está conseguindo se preparar para ser ator, entender os textos e decorá-los, ele lembrou que normalmente ele lê com muita freqüência, coisa que adquiriu, segundo ele, graças à “Série Vaga-Lume”. Embora ele não seja o modelo de um grande ator, fiquei muito feliz com esse depoimento. Até porque no Brasil não é comum o leitor lembrar-se da editora e da série que está lendo, nem entre adultos. Então, quando vejo pessoas lembrarem-se de séries como a “Vaga-Lume”, “Para Gostar de Ler” e “Série Bom Livro”, fico pensando se elas não teriam cumprido, mesmo que não de forma brilhante (o que é complicadíssimo em um país que valoriza tão pouco a arte e a cultura), sua missão. E era para ela chegar às famílias e escolas a um preço nunca superior a da revista Veja e sempre com textos integrais, além de estimular o surgimento de novos escritores e o resgate de velhos escritores sem grande espaço na época. Naturalmente, um outro aspecto que “o gosto de ler” carrega consigo é que gosto varia demais e dificilmente haverá um consenso pacífico se era boa literatura ou não. Em História, talvez devamos esperar mais uns 40 ou 50 anos para um julgamento mais neutro e com dados sobre o crescimento do mercado de adultos nos próximos anos. Sucintamente (mas nem tanto, como gostaria), é mais ou menos isso o que penso, passados já muitos anos dessas edições (embora elas ainda continuem, com relativo sucesso para seus mais de 30 anos).
ELENILSON – Discordo nesse ponto com você. Pelo que vejo por aí, não acho que esses livros tenham formado legiões de leitores. A proporção contínua a mesma, no fim das contas, com a diferença que os não-leitores antigos, de antes desses "paradidáticos", pelo menos saíam da escola sabendo o que era o básico da boa literatura nacional. Se for para não ler, que seja o melhor, e não o que, com boa vontade, se pode chamar de descartável. Houve algum momento na história da educação nacional em que um grupo de “gênios” decidiu que tinham que facilitar as coisas para os alunos. Não acredito nisso. A melhor prova disso é que, há algum tempo, peguei um desses livrinhos de um aluno. À medida que ia lendo o livro, tinha a sensação de que o conhecia de algum lugar. Só perto de terminar é que lembrei que tinha lido aquele livro na oitava série. Esqueci completamente. Mas não esqueci meu Brás Cubas, defunto autor; ou da boneca Emília do sítio; ou da Dona Flor do Largo Dois de Julho.
JIRO – Ainda sobre a questão de uma coleção formar ou não formar leitores é complicada porque ela não está resolvida. Se estivesse resolvida, teríamos a prova de qual foi o caminho que deu certo. Gosto muito de ver jovens espernearem quanto a esta questão, com argumentos sensíveis e idealistas do Elenilson. É preciso sempre termos professores, escritores, amigos, que pensem assim. Em país com mais dinheiro circulando no meio cultural, não ficaríamos restritos à escola e ao meio editorial como salvadores do problema da falta de leitura. Uma experiência como a “Big Read”, patrocinada pela BBC, na Inglaterra, nunca será aceita infelizmente por nenhum canal brasileiro de televisão. No meu comentário, apresentei apenas uma teoria, a “do degrau”, defendida pelos saudosos José Paulo Paes e meu antigo patrão e amigo, Anderson F. Dias, fundador da Ática. Preciso deixar claro que não compartilho dessa teoria. Há outras duas conhecidas, a “do filtro” e a “do hiato”. Aposto mais numa mescla dessas duas. Mas, feliz ou infelizmente, um país anda para frente ou para trás com as escolhas que vão se acertando entre os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que quiserem estar fora dessa relação devem lutar por uma outra forma de relacionamento econômico, político, social e cultural. Acho que muitos entendem o que estou querendo dizer. Quer resolver uma questão de felicidade humana no sentido de florescimento harmonioso de tudo o que o ser humano tem de potencial (solidariedade, conhecimento aplicado para uma vida melhor, em harmonia, em segurança, sem fome, sem sede (principalmente de cerveja, rs), com prazer cultural e social (e claro, sexual), tudo isso dentro de um sistema econômico e político em que nada disso conta? Eu não acredito. Mas não é por não acreditar que não possamos fazer algo para minorar os problemas. No meu ponto de vista, ler é uma prerrogativa básica de ser humano. Mesmo que leia um péssimo livro. No mínimo, você pode conversar com uma pessoa que leia, qualquer livro que seja. UM DOS PROBLEMAS MAIS SÉRIOS É QUE HÁ MUITOS EDUCADORES QUE NÃO LÊEM E ALGUNS CHEGAM A DETESTAR. Por mais teoria que tenham, não é possível passar algo que detestem para frente. Mesmo gostando, como é o meu caso, é tão difícil passar esse gosto, essa importância, para os amigos, para os alunos. Imagine então detestando... Enfim, uma história ainda sem final feliz.
ELENILSON – Uma vez você me sugeriu ler Saramago. Pois bem. Li o “Evangelho Segundo J. C.”, “Ensaio Sobre Cegueira”, “Ensaio Sobre Lucidez”; e o último livro “O Ano da Morte de Ricardo Reis” está sendo muito enfadonho. Gosto da maneira que o Saramago escreve, mas detesto essa unanimidade por todos os lados com relação à sua escrita. Parece haver certa antipatia ideológica. Estou gostando muito mais do Lobo Antunes. Li outro dia na internet que os dois são inimigos declarados. O que você acha dessas diatribes mútuas inúteis? Para você quem seria o melhor escritor português, Saramago ou Lobo Antunes?
JIRO – Sou apenas um leitor regular de Saramago e Lobo Antunes. O “Memorial do convento” ajudou de cara a fazer estourar o Saramago entre nós. “Os cus de Judas” assustaram de imediato os hipócritas de plantão entre nós. Demorou para o Lobo Antunes estourar aqui. Hoje são dois autores de grande público, considerando-se a língua em que escrevem. Naturalmente o Prêmio Nobel também pesa nessa "unanimidade" a que você se refere. USANDO GROSSEIRAMENTE A CATEGORIZAÇÃO PARCIAL DE EZRA POUND, TALVEZ SARAMAGO ESTEJA MAIS PRÓXIMO DA CATEGORIA DE "MESTRE" ENQUANTO LOBO ANTUNES, MAIS PRÓXIMO DA DE "INVENTOR". Por isso, difícil de confrontá-los. Vejo muito isso em discussão de colegas em torno do texto contido de Machado contra o texto aos borbotões de Alencar. Como não sou escritor, tenho a sorte "mineira" (e o azar, claro) de não ter de optar por um caminho, o de Saramago ou o de Lobo Antunes, nas minhas criações. Mas não deixa de ser curioso tentar fazer uma votação, mesmo na base do "gosto mais e pronto", entre os dois, para ver o que o povo pensa a respeito. EU, LEITOR MEDÍOCRE, VOU LENDO OS DOIS.
ELENILSON – Uma vez um estudante da cidade de São Paulo, me mandou um e-mail muito atípico: queria muito conversar comigo – quase desesperado e, por sugestão do próprio pai, advogado, tinha procurado e achado meu endereço pelo Orkut. Assunto era o meu livro de contos “Diálogos Inesperados...” (que até hoje você não me falou absolutamente nada), objeto de estudo em seu colégio. Havia, no entanto, um problema sério – que o tal rapaz foi logo confessando no terceiro e cruel parágrafo. Como ele não gostava de ler (“Pô, além de ser muito chato eu não tenho tempo”) e a prova sobre o dito livro era na próxima semana (“Ainda tenho que treinar para o campeonato de futebol da escola”), ele ainda me pede ajuda (“Meu pai me mata se eu tomar pau”). Então, ele, o coitado, precisava de um resuminho dos meus contos (“Não precisa ser muito grande”). Esse não é um caso isolado. Por exemplo, aprendi na escola que antes de P e B vem sempre um M; mas até hoje não aprendi a razão. (A quem interessar possa: P e B são bilabiais; a função do M é preparar a boca para esses dois fonemas – copiei da gramática). Assim como eu, milhões saem da escola até sabendo algumas coisas, mas geralmente com um entendimento muito superficial das coisas. A impressão que eu tenho é a de que os educadores esqueceram de uma coisa simples: é melhor ser analfabeto em Eça de Queiroz que analfabeto em “sei-lá-qual-o-seu-nome”. C O M E N T A.
JIRO – Um comentário difícil de ser feito. Há vários modos de se conceber um analfabeto. Muitos que se julgam assim não o são. Acabam assumindo porque os outros, aparentemente mais sabidos, assim os rotulam. O analfabeto que se diz assim e que tentou ler Machado e acha que não entendeu talvez não deva ser considerado assim. Às vezes, por falta de repertório livresco, ou de sintonia com o texto, ou de concentração possível ou estímulo suficiente no momento, tudo isso pode ter interferido no modo como ele leu e, por não poder tecer comentários iguais aos que estão nos ensaios críticos, acaba achando que não entendeu nada. Confesso que, quando li “Memórias póstumas de B. Cubas” pela primeira vez, não entendi quase nada. Por ter gostado muito de Quincas Borba, mais tarde, já adulto, voltei às “Memórias” e achei interessante, rico e estimulante. Há o analfabeto que se julga assim por nem tentar ler o livro. Esse, que foge do desconhecido porque nem quer saber, não faz a humanidade caminhar, não importa para onde. Penso que seja o pior analfabeto. É claro que todos têm suas prioridades e podem selecionar o que quiserem. Não acho legal obrigar todo mundo a ler um autor que a gente acha o máximo. Agora, quanto à "comparação" de ser preferível um analfabeto de Eça a um analfabeto de "sei-lá-que-autor", não sei o que dizer. De um lado, é como um time que prefere perder da Seleção Brasileira a perder do Utumbiara (com todo respeito a este último time). Só que isso pode escamotear uma grande fragilidade do time, que talvez perderia até do time do bar da esquina, mas por ter perdido da Seleção Brasileira pode passar uma imagem de que de outros não perderia. Assim, ser analfabeto de Eça, tudo bem. Só dele ou de todos os escritores. Se ele for analfabeto de todos os escritores, qual a vantagem dessa estufada de peito? Enfim, não sei bem o que decidir sobre essa questão.
ELENILSON – Como foi fazer a adaptação em português de um clássico da literatura francesa, com o foi o caso do “Corcunda de Notre-Dame” de Victor Hugo?
JIRO – Fiz duas adaptações de clássicos estrangeiros para o público juvenil: “Ivanhoé” e “Corcunda de Notre-Dame”. Considero que adaptação, em princípio e independente de questões sobre se é válido ou não "mexer" em Shakespeare ou Dante, é trabalho de autoria literária. No Brasil, escritores de peso fizeram adaptações dentro dessa perspectiva. Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony e muitos outros, sem contar traduções-adaptações de Graciliano Ramos, Manuel Bandeira ou Drummond. Como não me considero um ficcionista, o que fiz nos dois casos foi mais ou menos o que os ingleses chamam de "abridged version", isto é, fiz uma tradução-resumo dos dois livros. Como foi isso? Li os dois livros no original, anotando os momentos que considerei significativos de caracterizações (de personagens, espaço e tempo) e de transformações (principalmente de ações, que vão fazendo os personagens se aproximarem ou se distanciarem de seus objetos de busca, transitórios ou permanentes). Vi muita adaptação desses dois livros em outras línguas e era realmente adaptação, como costumamos sentir quando assistimos a adaptações cinematográficas desses romances. Suprimem-se personagens, acrescentam-se outros, mudam-se alguns locais, etc. No meu caso, não criei nada de novo, e só suprimi algumas caracterizações e cenas porque o projeto era mesmo de se fazer um resumo (a editora já estabelece um número x de páginas no máximo). Desse modo, selecionados os excertos significativos dos originais, fiz a tradução. Houve necessidade de se redigir pequenos parágrafos-ponte para ligar um trecho de outro para que as descontinuidades dos trechos não criassem a ininteligibilidade. Foi uma experiência gratificante no sentido de lutar para produzir um texto que não procurasse descaracterizar o original, mas dentro de coerções pré-estabelecidas pela editora. Gostaria, é claro, de traduzir integralmente “Ivanhoé” (no caso do “Corcunda”, já há boas traduções no mercado). Mas, para isso, seria preciso que alguma editora se interessasse. Enfim, é isso.
ELENILSON – O que falta para a literatura no Brasil acontecer?
JIRO – Como vinha dizendo, talvez só falte alguém com a ousadia e o poder de mídia de Mário/Oswald de Andrade, para promover algo de impacto como foi a Semana da Arte Moderna em 22. TALVEZ UM GIGANTESCO ENCONTRO NACIONAL DE SITES E BLOGS ALTERNATIVOS E CLANDESTINOS DE LITERATURA. Com toda a diversidade possível, com todas as tendências e os gostos possíveis, no mínimo teríamos uma cartografia mais real do que estaria ocorrendo com a literatura presente no país. O mercado está vivendo a mesma fase de outros mercados, isto é, a fase das fusões. Bancos maiores compram os menores. Universidades maiores compram faculdades isoladas. Editoras maiores compram as menores. E assim por diante. No meio de tudo isso, a questão do escritor e do leitor acaba contando menos no momento, a não ser como fornecedor e consumidor de produtos que se encaixam em um formato desenhado em planejamento estratégico. Para o bem ou para o mal, é da ordem do capitalismo. Na margem limítrofe oposta, a da contenção, a da próxima da resistência, vislumbro uma grande esperança em edições marginais, como já ocorreu com a "geração do mimeógrafo" nos anos 70. Fico entusiasmado quando vejo o Vanderlei Mendonça lançando poetas em tiragens de cem exemplares com a sua Ed. Demônio Negro. Edições caprichadíssimas com preços baixos. Nunca terão edições massificadas, mas, feitas praticamente à mão, passarão de mão em mão. E quando eu vejo a "organização" que passou a ter o mercado dos velhos sebos, acho que as edições artesanais, bem cuidadas, que podem estar nascendo em inúmeras cidades, poderão encontrar uma forma específica de se organizarem também. A Internet pode facilitar muito a comunicação para que todos se localizem. Como alguns cadernos de cultura em jornais chamados de cadernos-B, seria também como criar uma Literatura Brasileira - B. Uma hora, lá fora, muita gente ficaria curiosa em saber dela. Sonhos malucos? Talvez. Como certos quebra-cabeças, a solução pode vir se pensarmos com outras coordenadas, sei lá. Sonhar e criar é com os escritores.

foto: Jiro Takahashi/divulgação

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Terça-feira, 16 de Junho de 2009

ENTREVISTA COM O CANTOR E COMPOSITOR ALEXANDRE LEÃO

“João Gilberto, meu maior ídolo, recebeu um CD meu enviado por Rosa Passos e me mandou um recado maravilhoso, pedindo inclusive que eu continuasse a cantar "suave desse jeito, de um jeito que ninguém mais canta", segundo suas próprias palavras, entre outros elogios... Quer mais do que isso, de João Gilberto?” (A.L.)
Por Elenilson Nascimento
Nascido em Salvador (BA), esse talentosíssimo músico começou a cantar e tocar profissionalmente ainda adolescente. Apresentou-se nos melhores palcos da terra de Jorge Amado, até que sua música começou a romper fronteiras. Em 1989, com apenas 17 anos, teve a canção “Paiol do Ouro”, de sua autoria e de Olival Mattos, gravada por Bethânia. Nos últimos tempos, ele tem sido gravado por intérpretes como Ivete Sangalo, Lampirônicos, Belô Velloso, Ricardo Chaves e muitos outros. A música “Quando no meu peito bate”, composta em parceria com Manuca Almeida, integrou a trilha sonora da novela “Marcas da Paixão”, da TV Record, gravada pelo cantor/ator Eduardo Conde.
Já em 1998, viajou para a Europa, fazendo shows em Lisboa e Porto (Portugal) e Frankfurt (Alemanha). Participou do Prêmio Visa nos anos de 1999 e 2000, como cantor e compositor, e em 1998 como violonista acompanhante do trompetista Joatan Nascimento, tornando-se o único músico brasileiro a participar das três diferentes edições do “Visa”. Dessa forma, bem de mansinho, Alexandre Leão conquistou o Prêmio Copene Cultura e Arte – atual Prêmio Brasken –, através do qual gravou seu primeiro CD, “Minha Palavra”. Este disco foi lançado em dezembro de 1999 com uma apresentação no Teatro Castro Alves, em Salvador. O CD foi premiado também com o Troféu Caymmi de melhor disco 1999/2000.
Alexandre sempre projetou em suas músicas um apurado sentido literário. Não apenas as suas letras exalam poesia e imaginação, principalmente num país como o nosso que trata a cultura apenas como bem de consumo. Ou seja: quem consome boa música é quem tem alto poder aquisitivo. Mas as coisas estão mudando, pois o trabalho de Alexandre está impregnado pela boa expressão da experiência, de um modo vivo e profundo. Além de todo esse sucesso, Alexandre morou em São Paulo em 2002/2003, quando gravou seu segundo CD, pela gravadora Velas e conheceu a maravilhosa cantora Rosa Passos, passando a apresentar-se frequentemente nos seus shows, em várias cidades do Brasil. Desde 2004, Alexandre divide-se entre São Paulo e a sensacional Arembepe, praia do litoral norte baiano, que fica a 30 quilômetros de Salvador, que já foi o reduto do grupo Novos Baianos (Moraes Moreira, Baby, Pepeu, Boca de Cantor e outros) nos anos 70.
Hoje, Alexandre faz parte de um grupo de novos e interessantes músicos que está mudando a cara da chamada música popular, principalmente na Bahia – onde as pessoas erroneamente acham que só existe música “pra levantar e bater palminhas”. E para completar, para alegria dos fãs, Alexandre está participando de mais uma trilha de novela, desta vez com a música "Está em suas mãos" (Alexandre Leão/Manuca Almeida), composta especialmente para a bizarra "Caminhos do Coração", da TV Record. Se a trama televisiva é uma bosta, pelo menos vale pela trilha. Com muito suingue, soul e simpatia, estes elementos compõem o estilo desse jovem cantor e compositor que funde sucessos da música baiana com uma percussão vibrante e dançante. Já consagrado no cenário nacional como um músico experiente e, para a felicidade dos fãs, mais um filme do Cinema Nacional terá canções de Alexandre na sua trilha sonora. Trata-se de "Falsa Loira" do diretor Carlos Reichenbach. E a pedido do maestro Nelson Ayres, responsável pela trilha do filme, Alexandre compôs "Nem anjo, nem animal" e "Nós dois e o luar", gravadas pelo ator e “projeto de cantor” Maurício Mattar no estúdio Mister Vox, Rio de Janeiro, com direção do próprio Alexandre.
“É difícil dizer o que mais amo na música, de tanto que eu amo a música e todas as maneiras dela existir. A música me salva, me transporta para outros mundos, me dá uma sensação plena de felicidade” – disse o talentosíssimo cantor e compositor baiano. Na foto ao lado, Alexandre com a também maravilhosa cantora Mariene de Castro, lançamento do CD “Alexandre Leão”, Salvador (2004).
E depois de Marina Lima, Dominguinhos, Margareth Menezes, Mônica Salmaso, Funk como Le Gusta, Carlos Fernando (ex-Nouvelle Cousine), Perla, entre outros – até a Daniela Mercury juntou-se ao time de estrelas da MPB que gravaram jingles criados ou produzidos por Alexandre. Daniela colocou voz numa criação de Alexandre para os produtos de limpeza Ypê, que está tendo uma forte campanha publicitária, com veiculação nacional. A propaganda é aquela em que uma dona de casa é surpreendida com a Daniela (numa micro saia justíssima) cantando atrás das prateleiras. Recentemente, Alexandre respondeu algumas perguntas na comunidade LITERATURA CLANDESTINA (Orkut) com exclusividade e generosidade (dado o tempo exíguo e os muitos compromissos de um artista popular dos mais competentes desse país). Agora, confira trechos da entrevista com Alexandre Leão.
ELENILSON – O que você mais ama na música?
Alexandre Leão – É difícil dizer "o que mais amo na música", de tanto que eu amo a música e todas as maneiras dela existir. A MÚSICA ME SALVA, ME TRANSPORTA PARA OUTROS MUNDOS, ME DÁ UMA SENSAÇÃO PLENA DE FELICIDADE. Fiz dela o meu ofício, meu objetivo, minha missão. Eu me encontro com a música quando estou triste e ela me conforta, quando estou alegre, para celebrar a vida, e ela está sempre comigo... Eu amo a música como um todo.
ELENILSON – Como você faz pra compor?
Alexandre Leão – Eu componho por muitas razões e de muitas maneiras diferentes. Comecei falando de mim, do mundo que e como eu via e do que sentia. A partir do momento em que ganhei parceiros, passei a dividir as minhas emoções com as deles, e gostei muito mais de trabalhar assim. Hoje componho até por encomenda, como em trilhas de filmes e em jingles, que se constituem no meu exercício mais constante de composição atualmente.
ELENILSON – Misturar a música baiana, batizada então de axé, com outros ritmos nordestinos mais apelativos acabou jogando tudo numa vala comum de música de "baixo nível". Isso aliado aos preconceitos de uma chamada "inteligentzia" e à overdose da mídia (sempre pronta para os 15 minutos de alguém) acabou por embalar tudo num clima de "onda que já passou". Mas é inegável dizer também que já vivemos um período onde a criatividade musical produzida na Bahia andou em crise, tanto que durante alguns carnavais as músicas mais tocadas nos trios foram "importações", tais como "Erguei As Mãos" (Padre Marcelo Rossi) e "Anna Julia" (Los Hermanos). Com você encara essas coisas?
Alexandre Leão – Eu acho que há muito pouco espaço na Bahia para a música que não é feita simplesmente para "dançar", entreter, como a música de carnaval ou o pagode. Mas o mercado criado por esta "indústria do entretenimento" é uma coisa que tocou e beneficiou um número enorme de músicos, produtores, técnicos e outros profissionais de uma maneira inédita no Brasil fora do "eixo Rio/SP". Só isso já seria uma grande vitória, sem contar com os trabalhos de qualidade que surgiram dentro deste "bolo", como o do Olodum, Ylê Ayê, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Timbalada e Ivete, entre muitos outros que, se vistos sem preconceito, têm um grande valor e mudaram a cara da música no Brasil dos últimos 15 anos sensivelmente.
ELENILSON – Você lembra qual o primeiro disco que comprou? O que te despertou em música?
Alexandre Leão – O primeiro LP que comprei, economizando o dinheiro da merenda da escola, foi aquele do Ritchie (será que se escreve assim mesmo?), um enorme sucesso de 1983, que tinha "Menina Veneno" e outras canções que tocavam muito no rádio naquela época. Eu tinha 11 anos. A música sempre esteve ao meu lado. Meu avô era clarinetista e maestro da Banda Militar do Exército aqui em Salvador e posteriormente em João Pessoa, onde faleceu. Meu pai sempre tocou algum instrumento amadoramente e minha mãe ouvia MPB (Luiz Gonzaga, Bethânia, Caetano, Chico, etc) o tempo todo. Eu acho que já "despertei" com a música.

“A voz de Bethânia, por exemplo, é algo que está no meu inconsciente desde bebê... (risos) e eu tenho a honra de ter sido gravado por ela duas vezes, inclusive a minha primeira gravação, em 1989, quando eu era ainda um adolescente de 17 anos”. Na foto ao lado, Alexandre na Casa das Rosas, São Paulo, com Xinho Rodrigues.
ELENILSON – Quem são os seus principais parceiros?
Alexandre Leão – Meu primeiro parceiro foi Olival Mattos, co-autor da minha primeira música gravada, "Paiol do Ouro", por Maria Bethânia, em 1989, quando eu tinha 17 anos apenas. Mas ele morreu jovem (aos 36 anos) em decorrência de problemas renais. Depois disso veio Jota Velloso, com quem tenho mais de 30 canções. Em 1996 encontrei Manuca Almeida, que tornou-se o principal parceiro. A palavra de Manuca mudou a minha música definitivamente. Temos mais de 50 músicas gravadas por vários intérpretes. Meu mais novo parceiro é o carioca Carlos Colla, com quem já tenho um número significativo de canções e já algumas gravações vão surgindo. Colla é recordista brasileiro de composições gravadas e é também o autor mais gravado por Roberto Carlos, com 28 músicas de sua autoria registradas pelo "rei". Outros parceiros: Targino Gondim, Mabel Veloso, Ivan Huol, entre outros.
ELENILSON – Como foi se lançar em São Paulo, já que a capital paulista já havia recebido as cantoras Vânia Abreu e Ione Papas, os Lampirônicos e, mais recentemente, o intérprete e compositor Tito Bahiense?
Alexandre Leão – O ano de 2003 foi difícil, principalmente para compositores como eu, que assistiram à queda vertiginosa de direitos autorais advindos da venda de CDs. Coisas da pirataria... Foi também o ano em que as grandes gravadoras admitiram a falência do sistema e que um novo modelo de relação artistas/gravadoras começou a se estabelecer de fato. No entanto, foi o ano em que eu fortaleci meus laços e meu afeto pela cidade de São Paulo, tão pródiga em receber e misturar gentes e coisas. Nesse ano gravei meu novo disco pela Velas, também trabalhei com minha querida amiga Rosa Passos numa série de shows em que aprendi com ela mais e mais sobre seriedade, simplicidade e compromisso com essa missão de levar música para alegrar o coração das pessoas.
ELENILSON – Quais dos seus antigos ídolos se tornaram atuais colegas?
Alexandre Leão – Nesse quesito eu sou um privilegiado. A voz de Bethânia, por exemplo, é algo que está no meu inconsciente desde bebê... (risos) e eu tenho a honra de ter sido gravado por ela duas vezes, inclusive a minha primeira gravação, em 1989, quando eu era ainda um adolescente de 17 anos. Rosa Passos foi um caso de amor à primeira audição e depois tornou-se uma madrinha, com quem tenho me apresentado, gravado, etc. Mais do que uma colega, tornou-se uma grande amiga. João Gilberto, meu maior ídolo, recebeu um CD meu enviado por Rosa Passos e me mandou um recado maravilhoso, pedindo inclusive que eu continuasse a cantar "suave desse jeito, de um jeito que ninguém mais canta", segundo suas próprias palavras, entre outros elogios... Quer mais do que isso, de João Gilberto? Que beleza, que maravilha... Na Bahia, meus maiores ídolos de garoto eram (e continuam sendo) Gerônimo e Lazzo. Ambos já cantaram comigo em algumas ocasiões e Gerônimo inclusive gravou uma participação especial no meu primeiro CD, "Minha Palavra". Isso sem falar que tive a honra de ser gravado pelas Família Caymmi de uma vez só... Nana, Danilo e Dori, este último arranjando minha canção "Pop Zen" para a novela "Essas Mulheres", da Record. Também gravaram músicas ou jingles meus: Margarteh Menezes, Marina Lima, Dominguinhos, Daniela Mercury, entre outros que se tornaram "colegas".
Com os parceiros Olival Mattos e Belô Velloso, Salvador, 1987.
Tom do Sabor, maio de 2008. Após o show do Teatro do SESI (08 de janeiro de 2009), o encontro de Alexandre, Jota Velloso, Colla e Armandinho.
Site: www.alexandreleao.com
Contato: alexandreleao1@uol.com.br
fotos: divulgação.
Texto publicado originalmente no jornal O Rebate, 28/09/07.

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Domingo, 14 de Junho de 2009

ELES E EU – MEMÓRIAS DE RONALDO BÔSCOLI

Por Elenilson Nascimento
Aproveitando que o “rei” Roberto Carlos proibiu a sua recente biografia, “Roberto Carlos em Detalhes”, numa cena repulsiva digna de páginas policiais e divulgada meses atrás por toda imprensa, onde um imenso caminhão parou diante do depósito da editora Planeta e recolheu 670 caixas com 10.700 exemplares do tal livro, escrito pelo historiador (e fã declarado de RC) Paulo Casar Araújo. Eis o resumo da ópera: o desfecho do caso do livro censurado como resultado do acordo judicial mais escandaloso e esdrúxulo de que se tem notícia é a comprovação da ignorância de alguém com uma carreira artística há mais de quarenta anos, e um sucesso inigualável, que deveria ter ao menos noção da relevância da liberdade de expressão. É inacreditável que num país que se diz livre, em plena vigência do estado de direito democrático, com uma Constituição que assegura a liberdade de expressão, tenhamos uma fogueira queimando milhares de livros. Isso tudo é muito grotesco e vergonhoso. E eu tinha que escrever a minha ojeriza em algum lugar.
Mas se o objetivo do RC era fazer com que ninguém lesse o tal livro, seu plano foi por água abaixo. Centenas de páginas pela internet já estão disponibilizando o material em formato PDF e ainda enfatizando os pontos que incomodaram tanto o RC: o acidente de infância em que perdeu parte da perna (sempre achei que isso fazia parte o folclore), as revelações sobre a sua vida sexual (o cara era mesmo comedor) e o relato da agonia em 1999 de sua mulher Maria Rita. Só não entendo o porquê de tanto blá blá blá, pois todos esses casos já eram conhecidos e previamente publicados por todos os lados. Até Paulo Coelho em artigo na Folha de S. Paulo, censurou a editora Planeta pelo acovardamento que acabou tirando de circulação o livro – além de ter se declarado chocado com a “atitude infantil” do RC. E eu vou logo dizendo que quando eu for rico e famoso, ao contrário da sua estupidez do RC que não deixou ver a sua insensatez, vou exigir também a minha própria biografia não-autorizada, com direito às revelações incomensuráveis e inconfessáveis retiradas das páginas da Caras. Até parece que vou me dá a esse trabalho. Mas, aproveitando essa coisa de biografia, queria inaugurar esse espaço fazendo reverência a uma outra biografia (pouco divulgada, como sempre): o livro de memórias do ex-marido da Elis, o Ronaldo Bôscoli, escrito por Luiz Carlos Marciel e Angela Chaves.
Esse sim é um livro muito interessante (“sem nenhum remorso, sem qualquer rancor”), independente da rasgação de seda em cima do biografado. Bôscoli (em tempos remotos) foi o porta-voz de uma tendência musical que surgia no Brasil: a Bossa Nova. No livro, ele aparece participando de todo o movimento, traçando um panorama humano e artístico dos grandes nomes da música popular brasileira; o seu difícil relacionamento com Elis; a sua infância no internado de São José; algumas fotos com os filhos (muito legal ter visto o João Marcelo menino, pois eu adoro o cara); o depoimento dele dizendo que tinha tudo para ser bicha (muito hilário!); um textozinho sobre Nelson Rodrigues; os ciúmes por causa do envolvimento da Elis com Pelé; a primeira capa de disco da Bossa Nova; Norma Bengell fazendo show na PUC; o sucesso de gente como Juca Chaves, Sylvinha Telles, Zimbo Trio, Os Cariocas, Trio Irakitan, Baden Powel; o preconceito da sociedade contra Elza Soares e as transas com Nara Leão – quem diria, com aquela cara de santa.
Estão presentes também as suas deliciosas histórias com Jobim, Vinícius, Roberto Carlos (quando ainda não deixava que o ego subisse à cabeça), Sérgio Mendes, Wilson Simonal (vale muito a pena conferir o depoimento sobre o Simonal), Roberto Menescal, o chato do João Gilberto, Maysa e outros personagens da noite carioca. Além de coisas sobre a Xuxa, Tim Maia, Telê Santana, Paulo Coelho, Nelson Motta, Milton Nascimento, Bethânia, Lúcio Alves, Juscelino Kubitschek, João Goulart, o maravilhoso João Donato, Jô Soares, Flávio Cavalcanti, Fagner, Fafá de Belém, Fábio Jr., Erasmo, Emilio Santiago, Elizete Cardoso, Caymmi, Djavan, Danuza Leão, Caetano, Boni (da Globo) e o namoro com a atriz Joana Fomm. Tem ainda algumas fotos bem bacanas de Ari Barroso com os “moços da Bossa Nova”, Marcos Vale novinho, com Miéle e do casamento com Elis. Bôscoli também cita Frank Sinatra, Nat King Cole, Johnny Mathias e Julio Iglesias – todos desmistificados por seu olhar de jornalista e observador da história que se construía.
Em tempo: Bôscoli é autor de "Canção que morre no ar” (com Carlos Lyra), "O barquinho" (com Roberto Menescal), entre outras músicas que ficaram na história e estão presentes no repertório de grandes intérpretes. O cara também foi cunhado de Vinicius – pode imaginar isso? (“ELES E EU – MEMÓRIAS DE RONALDO BÔSCOLI” de Luiz Carlos Marciel e Angela Chaves, 286 págs. Rio de Janeiro, 1994 – Nova Fronteira)
Texto publicado originalmente no jornal O Rebate, 27/07/07.

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Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

COLEÇÃO LITERATURA CLANDESTINA – 2009

Estou formando um novo grupo de autores para o lançamento de uma trilogia com poemas, contos e crônicas. E o primeiro volume – com poemas – já está sendo organizado. Vamos unir forças e através da ARTE mostrar que o nosso país ainda tem solução (*tem alguém aí que ainda acredita?), pois nós não fazemos ARTE para adestrar macacos! A LITERATURA precisa de um sistema mais organizado, precisamos de Políticas Públicas que prezem pela formação de leitores e ter uma visão mais profissional, porque fazer um livro não é um processo banal. Então, erguei-vos, caros poetas!
Elenilson Nascimento
autor/organizador

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Sábado, 30 de Maio de 2009

ENTREVISTA COM A POETISA/ADVOGADA CAMILA CARNEIRO

“Achava que eu seria indispensável no meu trabalho, que salvaria o mundo e dedicaria os meus dias na defesa dos oprimidos. Hoje, como profissional recém formada, não acredito mais em heróis da Justiça...” (C.C.)
ELENILSON – Como funciona da Justiça brasileira: um juiz da Vara de Família, Arnon José Coelho Júnior, foi condenado em Roraima, por estuprar uma menina de apenas 13 anos em 2005. Ele pegou 9 anos e 9 meses de prisão, também foi afastado de suas funções por conduta incompatível com o cargo de magistrado, mas, apesar da condenação, Arnon não será preso enquanto houver possibilidade de recurso. Lindo isso, não é? Mas se fosse um estuprador sem diploma de juiz? Essa é a Justiça brasileira? Dá licença que eu vou no banheiro vomitar. Mas, antes, comenta.
Camila Carneiro – O ilustre mestre Ruy Barbosa, um dos maiores jurista e políticos do país na famosíssima (ao menos para o mundo jurídico) “Oração aos Moços”, discurso proferido por ele quando paraninfo de uma turma de bacharéis em Direito afirmou: “ A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam” . Isso sintetiza o que é a Justiça do nosso país, ou melhor, isso sintetiza o que é o nosso país, desigual, porque as pessoas são desiguais, pois pessoas possuem condições sociais, intelectuais e financeiras diferentes, e esse é um caso clássico de desigualdade, tem o melhor serviço, aquele que pode pagar mais, isso é fato público e notório para qualquer um.

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

ENTREVISTA COM O DESENHISTA JORGEBIN

“Talvez as pessoas liguem o "ser artista" com o sucesso ligado a um grande público. Como não considerar aquele artista que pinta em azulejos paisagens belíssimas em alguns minutos como tal! Estive no Pelourinho e eles são notáveis!” (Jorgebin)
ELENILSON – Qual foi a encomenda que mais mexeu com seu ego?
Jorgebin - Hummmm... eu curto muito criar personagens na ficção. É fantástico você criar alguém que não existe e você dar vida a ele, pensamento, vontades... ele vive por você. Tive grande satisfação em criar o Tijolo (meu personagem infantil que circula todo sábado aqui no jornal da cidade) e o Sabino com sua irmã Cacau (também do mesmo suplemento) e quando tenho contato com as crianças elas me pedem para desenhar ou dar autógrafos... hehehehehe... é fantástico.
ELENILSON – Como você descobriu que possuía este dom artístico? Como foi o início de sua carreira?
Jorgebin - Sempre desenhei desde que me conheço por gente. Obviamente o traço vai mudando com o tempo. Mas era aquele aluno que a professora mandava desenhar no quadro. Minha mãe não vencia comprar cadernos de desenho para mim!

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