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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O PAÍS DO CARNAVAL (... E DOS EXCLUÍDOS)

"Estima-se que metade dos que seguram as cordas dos blocos de trio em Salvador tem entre 18 e 24 anos e está desempregada." (A Tarde, 05/02/06). Nem só de caras bonitas e famosas se faz o carnaval na Bahia. A terra do carnaval já está um caos. O serviço de transporte e as ruas já estão intransitáveis. No Campo Grande e na Barra (principais locais da “muvuca” baiana) a manifestação explicita da segregação: OS CAMAROTES. De um lado o luxo dos camarotes super valorizados do outro o lixo e a falta de estrutura destinada ao povo. Desde que os blocos de trio passaram a ser o elemento mais importante no carnaval de Salvador, nos anos 80 (quando para entrar num bloco você tinha que ser morador de um bairro nobre e bonito), a figura do "cordeiro" (profissional que segura as cordas nos blocos de trio em Salvador) se consolida. Nesta época, a música que era passada em cima dos trios, passa a ser gravada e os blocos viram uma indústria – uma indústria poderosa.

O carnaval em Salvador cria formas de trabalho temporário das piores possíveis, e uma delas é a de cordeiro. Para quem não conhece, cordeiro é o nome da pessoa que segura as cordas que separam o "folião pipoca", que brinca nas ruas sem entrar em blocos, do folião de dentro dos blocos. Hoje, milhares de jovens soteropolitanos, durante seis dias ao ano, desempenham a tarefa de serem cordeiros em troca de um valor irrisório (R$20,00 ao dia). De acordo com estimativas da Assidcorda (Associação dos Trabalhadores Cordeiros), jovens entre 18 e 24 anos representam praticamente metade (49%) dos associados da entidade que seguram as cordas dos blocos de trio em Salvador. Dentro da suposta “segurança” das cordas dos blocos é agregada uma sensação de liberdade efêmera ligada à quantidade de dinheiro que entra com as vendas dos abadás para os foliões.
Porém, os cordeiros são a prova viva da desigualdade soc
ial e da falência do Estado. Sem eles não existiriam os blocos nesse formato conhecido. É no carnaval de Salvador que podemos constatar nitidamente a triste e histórica segregação. Dentro doas cordas dos blocos os turistas, os brancos bem nascidos (porque existem brancos mal nascidos), os despreocupados, os comercialmente felizes, os lindos e os apadrinhados. Já no contraste, segurando as cordas: os pretos, os periféricos, os desempregados e os fora das estatísticas.
PROCESSO HISTÓRICO DE DISCRIMINAÇÃO –
Na década de 50 do século passado, existiam blocos (diferentes dos que existem hoje), mas quem segurava as coras eram os próprios integrantes. A partir do crescimento do carnaval de Salvador, aliado ao turismo, a coras aumentaram e surgiu a função de cordeiro.
Os cordeiros reclamam que sofrem discriminação e são desrespeitados por alguns foliões do bloco e por PMs (não são poucas às vezes que, aqui em Salvador, a Polícia Militar abusa da autoridade para bater nas pessoas e humilhar não só cordeiros, mas a população mais carente de modo geral). Nem todo cordeiro, porém, é um exempl
o de boa conduta na avenida. Há cordeiros que brigam, outros que roubam. No entanto, muitos blocos de trios acabam contratando "qualquer um" para segurar as cordas. Já vi casos em que, na boca do desfile, o pessoal da segurança começa a cadastrar o povo ali mesmo.
A saga do cordeiro não é das mais fáceis. Mas existem também os momentos de alegria, principalmente se o bloco for puxado pelo artista preferido. Chiclete, Ivete ou a Daniela estão no topo da lista dos preferidos.

MARKETING DE RELACIONAMENTO – Porém, existe também o chamado marketing de relacionamento. Tudo é em função do interesse. Tudo é muito cruel. E o povão, nem pensar de entrar em alguns lugares no carnaval de Salvador. Para quem está dentro dos camarotes da folia em Salvador, por exemplo, tudo é só glamour: O CARNAVAL VISTO DE CIMA, SAUDAÇÕES E RAPAPÉS DOS ARTISTAS QUE PASSAM EM CIMA DOS VÁRIOS TRIOS, UM EMBARRAR-SE EM CELEBRIDADES CADA VEZ QUE SE VAI AO BANHEIRO E MUITO, MUITO BURBURINHO. Já para quem está fora, só água na boca: olho comprido para os "escolhidos" que estão lá, num dos melhores lugares da folia, inveja de quem conseguiu, e muita, muita vontade de estar entre os incluídos.
É essa vontade de estar entre os "eleitos" que se converte no principal PESADELO dos anfitriões e mestres-de-cerimônia que cuidam das listas de convidados dos camarotes. Mas existe uma engenharia para "triar" os inconvenientes e chatos de plantão que dão canseira para estar, de qualquer jeito, num desses disputados metros quadrados do carnaval de Salvador. A maioria dos que lidam nesse corpo-a-corpo de convidados é diplomática
e prefere não se indispor com ninguém, finge que o assédio dos excluídos não existe, "ou quase nunca acontece".

Com alguns ajustes, esse discurso-padrão é o mesmo da grande maioria de donos de listas da "porta de entrada" dos camarotes, ou da "filial do inferno" para alguns outros. E qual seria esse perfil? Empresários, homens de negócios e artistas famosos – os menos famosos nem são lembrados. Essa parece ser a metodologia aplicada por Flora Gil, entre muitos, para definir a lista de convidados do chiquérrimo "Camarote 2222", o espaço do ministrartista Gilberto Black Gil na folia soteropolitana, do qual Flora cuida com toda diligência. O espaço, que também é para convidados, é muitíssimo bem freqüentado por autoridades, artistas e descolados fashions (digo, os bem relacionados).


PRIVATIZAÇÃO HORIZONTAL – Mas a privatização horizontal do espaço público tem sido um dos principais problemas do carnaval de Salvador. Segundo a dramaturga baiana Aninha Franco*, o cordeiro é um tijolo do muro que separa a elite econômica da cidade da baía** do povo. Diz-se que a separação é apenas econômica. Que quem pode pagar pelo abada tem acesso aos blocos de trio que os cordeiros protegem com os seus corpos. Diz-se, também, que há resistência à entrada de negros nesses blocos. Conhecendo a cidade, como conheço, acredito na última hipótese.
Antes dos cordeiros, essa elite era guardada por muros de arquitetura menos sólida, de tijolos e cimento. Há pouco tempo. O Muro de Berlim caiu antes dos muros dos clubes sociais baianos, de austeridades lendárias na defesa da cor e dos bons costumes. No Baiano de Tênis, por exemplo, "(...) preto não entrava (...) nem pela porta da cozinha (...)" (Gilberto Gil, 1981, CD "Tradição"). Branco rico de má família também não entrava. Baby Pignatari, o playboy, foi barrado no Carnaval de 1958, e perguntou quanto o clube custava. Ignoraram a proposta.
A elite que os freqüentava, "gente sem graça no salão" (Caetano Veloso, 1977, CD "Um Frevo Novo"), em meados dos anos 80 foi para as ruas, resguardada por muros humanos, os cordeiros, e transformou o carnaval no melhor negócio que a cidade
da baía tem atualmente, exportando para todo o resto do país. Vi este Carnaval, em 2005, na TV. É sem graça como o carnaval dos clubes.

+ PROCURA-SE QUEM SEGURE A CORDA

Perfil do candidato:
• Disponibilidade para trabalhar durante os seis dias do Carnaval, durante seis horas por dia (podendo-se estender peara 8 e até 12 horas, mas não pagamos extra). • Entre 18 e 50 anos. • Vigor físico para agüentar trabalho ininterrupto. Oferecemos: • Material de trabalho: luvas, colete e protetor auricular. • Lanche: um pacote de biscoito (com seis unidades) + um suco de caixinha ou "refri" + duas garrafas de água de 500 ml. • Pagamos: R$20,00/dia + vale transporte. Total: R$120,00 (se consegui receber o dinheiro da organização) + 12 vales-tranporte. Obs. Cordeiros na podem usar os sanitários do carro de apoio dos blocos.

+ Dicas para quem não tem dinheiro, não é muitooooooo lindo, não trabalha na Globo, mas quer estar, de qualquer jeito, num dos camarotes de carnaval de Salvador: 1. "Aconteça" durante o ano, não importa como (claro, leitor amigo, não vale infringir a lei). Quem "acontece", interessa ao camarote por gerar mídia "de grátis". Por exemplo: pelas peripécias, Preta Gil é uma candidata em potencial para várias listas de convidados neste carnaval.
2. Se você tem reais (no sentido "real" da palavra)
possibilidades de ser convidado, em hipótese alguma ligue para pedir sua inclusão. Lembre ao promoter que você existe de forma sutil, nunca no "embate direto".
3. Tenha um amigo famoso em suas relações.
4. Se você for barrado, não perca a pose. Não participe daquela famosa aglomeração na porta do camarote, implorando para entrar, inventando desculpas ou atacando de "você abe com quem está falando?". Isso irrita ainda mais o promoter, que certamente vai riscá-lo da lista para sempre.
5. Ao entrar, siga as regras da (boa) convivência social: não importa os artistas que transitam por ali, não seja inconveniente, não se exceda no bar e, sobretudo, não puxe o saco do promoter – não é assim que você voltará a ser chamado.
P.S. Recomendo o documentário “Cordeiros” de Amaranta Cesar e Ana Rosa Marques, exibido recentemente pela TVE. Composto por imagens, sons e entrevistas captados durante três carnavais (2004, 2005 e 2007), « Cordeiros » é um documentário que, de maneira inédita, lança um olhar sobre os cerca de 80 mil homens e mulheres que trabalham como cordeiros no carnaval de Salvador. O documentário pretende tornar visíveis as condições deste trabalho e as fronteiras que os blocos desenham nas ruas. Através das imagens e das vozes dos cordeiros, a corda torna-se um objeto estranho, perturbador, violento; uma metáfora explícita das tensões entre incluídos e excluídos, brancos e negros, ricos e pobres. Nesse processo, o próprio ato de filmar torna-se objeto de reflexões e tensões. E parafraseando a Lya Lyft: “Se fôssemos um país mais educado, menos policiais morreriam por nós, menos cidadãos seriam assaltados e mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força teriam os narcotraficantes”.


* Aninha Franco é dramaturga, autora de peças de teatro em Salvador, como "Esse Glauber" (que fala sobre os cordeiros), "Três Mulheres e Aparecida", "Brasis" e assinou o prefácio do livro “Contos Perversos”.
** Cidade da Baía de Todos os Santos é o nome original de Salvador.


imagens: Carla F. Bueno.

8 Comentários:

  • A graça do folião comum, aquele que vai à pipoca curtir (fora das cordas, livre, nas ruas, no meio do povo) quase acabou. Aficcionado pelo Chiclete, por Ivete ou pelo Asa que “arrêa”, arrisca a diversão popular, a ‘pseudo maior festa grátis do planeta’. Dizer que se acotovelam é mentira das maiores: é praticamente impossível subir ou mexer os braços na multidão. O vai para lá e para cá na maior parte do tempo envolve um empurra-empurra do qual ninguém escapa. Suores, banhos de cerveja, agarra-agarra e respingos da imensa quantidade de urina que alaga o “chão da praça” são inevitáveis. Pense em jogar seu tênis fora depois do primeiro dia (eu sempre adquiro um baratinho só para abandoná-lo tão logo acabe o carnaval).

    Por Blogger Carvalho, às 5 de fevereiro de 2008 11:39  

  • Sem contar que nos camarotes, ar-condicionado, borrifos de água pulverizada para diminuir o calor e aumentar a umidade do ar, música para os intervalos entre os blocos, piso até com grama sintética, rede conectada ao mundo todo, bares e restaurantes, infra-estrutura de fazer inveja. Parece mais uma praça de alimentação de um grande shopping dos melhores centros urbanos. Bela reportagem.

    Por Blogger Manuela, às 5 de fevereiro de 2008 11:48  

  • Fazer uma festa para mais de 2.000.000 de pessoas é quase um suicídio municipal. Havia sanitários em vários lugares ao longo do percurso, sim, mas imagine a quantidade que serviria para atender a este número de pessoas. E eu não estou falando em conforto porque se alguém conhece um sanitário químico na Bahia, conforto é tudo em que não se pode pensar jamais. A cena da Sabino Silva me fez lembrar Ensaio sobre a cegueira de Saramago.

    Por Blogger Manuela, às 5 de fevereiro de 2008 11:48  

  • Quando vejo os números da violência, respiro aliviada. As mortes são poucas se considerarmos a multidão. A quantidade de pessoas aglomeradas poderia gerar uma catástrofe que a festa da alegria não permite, graças.

    Assaltado, entretanto, é certo que você será. Mesmo que não leve nada. Na multidão, enfiam a mão em seu bolso, afanam sua corrente e partem suas pulseiras. Ainda que não leve nada de valor e nas orelhas carregue uma bijuteria barata, seus bolsos serão revistados e é por isso que nós, baianos, distribuímos o dinheiro pelas meias, lateral da calcinha e bolsos diferentes. Na minha bermuda, eu carregava no bolso traseiro a carteira do plano de saúde no primeiro dia: voltei sem ela para casa. Deve ter passado uns dias no chão da avenida à espera dos lixeiros desde o instante em que o bandido folião percebeu que não era de valor já que pessoal e intransferível.

    Por Blogger Manuela, às 5 de fevereiro de 2008 11:49  

  • Primeiro foi o sarampo e a invenção de que era necessário vacinar-se contra a doença para ir a Salvador.

    Depois o destaque descontextualizado dos números sobre a violência. As duas alegações são destituídas de fundamento e se prestam a servir de argumento contra o turismo da Bahia. E o turismo ainda é, para a Bahia, um razoável indutor da economia e da geração de emprego e renda.

    Em relação ao sarampo, somente três casos se registraram em Salvador. Ocorre que a Organização Mundial de Saúde, considera que, para as doenças já erradicadas, um só caso se constitui em epidemia. A Secretaria da Saúde da Bahia, mesmo assim, aplicou 900.000 vacinas e o Estado passou a ser o lugar do Brasil mais imunizado.

    A violência não é marca do Carnaval da Bahia. Em que cidade do mundo acontece uma festa com quase 2 milhões de pessoas em 25 quilômetros de festa, consumindo algo como 17 milhões de litros de cerveja e refrigerantes (fora uísque, cachaça e outras bebidas) e se registram apenas 1.680 ocorrências policiais correspondendo a 0,1% da população envolvida na festa? Nenhum turista foi ferido. Alguns tiveram seus celulares roubados, tanto quanto os baianos, e nos três circuitos carnavalescos registraram-se apenas 2 casos de morte e uma pessoa gravemente ferida. Para todos nós e principalmente para as famílias enlutadas isso é trágico. Mas não compõe um quadro de violência se levarmos em conta o número de pessoas nas ruas.

    Por Blogger Nazaré, às 5 de fevereiro de 2008 11:50  

  • Algumas pessoas acham que o Carnaval da Bahia está se fechando numa "panelinha" e com isso as bandas que ficaram de fora tendem a ser "apagadas" do cenário.

    Por Blogger Nazaré, às 5 de fevereiro de 2008 11:52  

  • O carnaval na Bahia é um dos mais perfeitos retratos do nosso país. Os ricos com tudo de bom, refrigerados, alimentados, privilegiados; os pobres excluídos dos blocos, camarotes expostos à violência; e todo mundo fingindo que está tudo bem.
    A violência é mais uma forma de "gritos dos excluídos", afinal toda a tensão, apesar da aparente alegria, tem que se manifestar de alguma forma.

    Por Blogger Léo, às 6 de fevereiro de 2008 13:46  

  • REPORTAGEM

    Gostei de "V"
    Diz "na lata"
    o que a "nata"
    tem medo dizer

    Por Blogger Airton Soares, às 6 de fevereiro de 2008 14:34  

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