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sexta-feira, 11 de abril de 2008

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

"O Segredo de Brokeback Mountain não é apenas um filme sobre gays. É sobre a grandeza do amor em si”. Esta foi à frase dita pelo diretor Ang Lee, ao receber o prêmio por sua direção no início de 2005. Mesmo com indicação a oito Oscars, a história de amor foi vencida pelo violento (mas também muito bom) drama “Crash – No Limite”, que faturou a estatueta na categoria de “Melhor Filme”, prevalecendo a tradição em Hollywood (e porque não dizer preconceito). Naquela noite do Oscar (uma noite recheada de piadas pejorativas sobre gays contadas pelo chatinho John Stewart (um homofobico de carteira) já era o presságio dos preconceitos que “Brokeback Mountain” teria que enfrentar para ganhar de “Crash” a estatueta de “Melhor Filme”, ainda que fosse o preferido nos bancos de apostas. O fato é que o longa levou apenas três dos oito Oscars que tinha sido indicado: “Melhor Diretor”, “Melhor Trilha Sonora” (Gustavo Santaolalla de “Diários de Motocicleta”) e “Melhor Roteiro Adaptado”.
Mas, enfim, acabei comprando por R$ 22,00 o livro “O Segredo de Brokeback Mountain" que, na realidade, é um conto extraído de um livro de contos da excelente escritora Annie Proulx, publicado pela primeira vez em outubro de 1997 na conceituada revista norte-americana The New Yorker. Proulx (pronuncia-se "prul"), senhora de 76 anos, vive hoje em uma região rural do Wyoming, estado no centro-noroeste dos Estados Unidos. Segundo a autora, o assédio em torno da história estava comprometendo sua rotina.
A AUTORA – Proulx começou tardiamente a escrever ficção, aos 56 anos. Tardio, porém, não foi o reconhecimento: diversas de suas obras ganharam grandes prêmios literários internacionais, e já o segundo livro, "The Shipping News" (publicado aqui sob o título "Chegadas e Partidas" pela editora Bertrand Brasil) levou o famoso Prêmio Pulitzer na categoria ficção. "Brokeback Mountain" está na antologia "À Queima-roupa - Contos do Wyoming", que já deve ter saído pela Bertrand Brasil, mas que eu ainda não o encontrei.
Críticos de seu trabalho acusam-na de expor seus infelizes personagens a traumas intensos e a uma realidade negra demais – como se todos os percalços na vida dos gays fossem apenas ficção. E no caso de "Brokeback Mountain", contudo, foi a realidade, em um lance de humor negro, que se encarregou de tornar a literatura ficcional de Proulx um consistente presságio.
A VIDA IMITANDO A ARTE – Meses depois da publicação do conto, um crime de ódio aconteceu perto de onde a escritora mora, na região de Laramie. Matthew Shepard, então com 21 anos, saiu de um bar gay com dois rapazes. Ele foi levado a um lugar ermo, amarrado a uma cerca, espancado, roubado e deixado à morte - que o alcançou após horas de agonia sob o frio da noite. Tal era a situação do corpo, que o homem que resgatou Shepard ainda com vida ficou na dúvida se o que via da estrada era uma pessoa ou um espantalho (o episódio inspirou composições de diversos músicos pop, como Elton John, George Michael, Madonna e Melissa Etheridge). Outro lance de espetacular coincidência ou mórbida ironia levou Proulx a ser convocada para o júri do julgamento dos agressores. Obviamente, ela foi descartada pela defesa, o que não impediu que cada um dos acusados recebesse duas penas perpétuas consecutivas.

Jake Gyllenhaal no lançamento de “O Segredo de Brokeback Mountain", que logo depois participou da produção de “O Soldado Anônimo” para acabar logo com o estigma de cowboy gay do filme anterior.

OS PERSONAGENS SÃO GORDOS E FEIOS – Enfim, é nesse mesmo Wyoming, em um verão de 1963, antes dos hippies, do "amor livre", do LSD, do ecstasy e da Aids, que se encontram os caubóis Jack Twist (interpretado no filme de Ang Lee pelo talentoso Jake Gyllenhaal) e Ennis del Mar (pelo excelente Heath Ledger - foto abaixo, morto recentemente). Eles sobem à montanha Brokeback para cuidar de um rebanho de ovelhas e juntar algum dinheiro - Ennis pretendia se casar com sua namorada Alma brevemente. E o amor surge, sem dizer seu próprio nome nem encontrar nenhum outro que lhe convenha, e se instala entre eles pelos longos 20 anos seguintes. Uma curiosidade: na vida real Ledger casou-se com a atriz Michelle Williams que fez o papel de Alma.
Mas Jack e Ennis, como imaginados por Proulx, demorariam algo mais do que Gyllenhaal e Ledger para despertar a luxúria da audiência. Porém, os personagens do conto de Proulx são muito diferentes dos que aparecem no filme. Jack é baixo, dentuço, de cabelos enrolados e tinha "pneus" na cintura que aumentaram com o passar dos anos. Ennis, por sua vez, é alto e magrelo, de rosto fino, nariz torto e as pernas arqueadas típicas de caubói. Não obstante a aparência física e "os modos toscos e a fala tosca", esses moleques de 19 anos criados para serem rudes mantiveram a autora cativa por um bom tempo, fato que ela só admitiu, inclusive para si mesma, após ver o filme pronto. Considerou-o irretocável. "Tive medo de que o cenário se perdesse, de que o sentimentalismo se infiltrasse, de que o conteúdo sexual explícito se diluísse. Nada disso aconteceu", garantiu ela em seu site.
Eu já tinha lido o livro na época do lançamento do filme, mas ontem, antes de sair para fazer uma prova de concurso público, resolvi ler tudo de novo. E pela primeira vez eu afirmo que o filme é bem melhor, tratando-se de um livro que foi lançado de carona no sucesso do filme e não há como não comparar. Muitas coisas no texto soam artificiais, mas ficaram perfeitas na tela. O conto dos caubóis gays começa com um flashback, em que Ennis aparece mais velho, logo após sonhar com Jack. Não achei nada vulgar a maneira como Proulx narrou a história, como muitos jornalistas escreveram por aí.
Parece que toda a surpresa reservada pela narrativa – o fato de os caubóis se descobrirem homossexuais - reduz-se ao próprio fato. Mas a história se mostra muito além disso. De positivo, resta o tratamento dado ao espaço, com descrições bonitas sobre as cores da manhã, a tempestade, o anoitecer. Não à toa, um personagem que curiosamente se sustenta na história é o vento, que reaparece sempre, como que seguindo a narrativa e assumindo várias formas. Logo no início, "o vento bate no reboque como uma carga de lixo sendo despejada de um caminhão"; chegando na montanha, os dois entram "nos grandes prados floridos e na ventania sem fim".
Com poderosas elipses, diálogos estrategicamente inconclusos, frases certeiras como um bote de cobra ("o que você não pode consertar, você tem que encarar") e imagens esculpidas em palavras ("a sombra de seus corpos, uma única coluna contra a rocha"), Proulx mostra em exatas 60 páginas o poder de corrosão do medo e do mundo sobre o amor, sentimento em geral tido como indestrutível e milagroso por romancistas mais "felizes".
Uma cena que poderia ter sido mais explorada no filme e que aparece como a mais comovente do conto é aquela em que Ennis se lembra que o único momento de "felicidade natural e encantada em suas vidas separadas e difíceis" foi o momento, não de uma trepada, mas de um abraço mudo e apertado. Muito legal. Talvez isso dê razão àqueles que dizem ter visto no filme não uma história homoerótica, mas mais uma bela história de amor.
Sem medo de despedaçar as expectativas do leitor, sua trama desperta ao mesmo tempo a ansiedade de saber até onde vai tanta intensidade e o medo de virar a próxima página e descobrir a resposta. Não satisfeita, a autora ainda acrescentou, à versão de "Brokeback Mountain" publicada na coletânea "Close Range" (ainda sem versão em português), um prólogo que não estava lá e que denota algo de sádico quando relido após a conclusão da história. Fale de sua aldeia e falará do mundo, dizia Tolstói. Annie Proulx quis falar do amor em uma aldeia e falou do amor no mundo. Ah, sim: e eles eram dois caubóis. E VIVA A DIVERSIDADE! (“O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN” de Annie Proulx, conto, 72 págs. 2006 - Ed. Intrínseca).

+ Curiosidade: Joel Schumacher e Gus Van Sant estiveram cotados para dirigir “O Segredo de Brokeback Mountain”; um roteiro foi escrito no final da década de 90, tendo permanecido durante anos sem conseguir financiamento para ser rodado; durante as filmagens Heath Ledger rodou uma cena em que entrava nu em um lago. O diretor Ang Lee cortou as cenas em que apareciam nudez frontal do ator, mas um paparazzi conseguiu tirar fotos com uma câmera digital durante a realização desta cena. As fotos de nudez frontal do ator chegaram a ser publicadas em algumas revistas americanas e também na internet; Heath Ledger quase quebrou o nariz de Jake Gyllenhaal ao realizar uma cena de beijo com o ator; o filme foi exibido no Festival do Rio 2005 e aplaudido de pé. E, por fim, a morte de Heath Ledger foi mesmo acidental. O ator teve uma parada cardíaca depois de uma combinação letal de vários remedinhos tarja-preta. Os médicos que fizeram à autópsia final, no entanto, garantem que nenhuma substância foi ingerida em excesso. Amigos próximos do ator dizem que ele andava tão exausto - por conta das noites em claro -, que muitas vezes até se esquecia de já ter tomado seus remédios, repetindo a dose. E, podem ter sido exatamente essas duas ou três cápsulas a mais, que mataram o próximo Coringa (foto ao lado). Uma perda irremediável para o cinema.

P.S. Em tributo ao ator Heath Ledger, vou postar aqui o filme "O Segredo de Brokeback Mountain" que o levou ao estrelato e a indicação ao Oscar interpretando o cowboy gay Ennis del Mar.
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fonte dos links do filme: Bryan.

10 Comentários:

  • Adorei o filme! Longe de todo esteriótipo, o fime retrata como a paixão homossexual pode ser tão linda como qualquer outra história de amor. Abaixo a cultura gay, viva a psicogenesi homossexual! é isso. Valeu pela lembrança do filme e concordo com tudo que foi escrito.

    Por Blogger andre luiz, às 11 de abril de 2008 14:11  

  • Gostei como foi apresentada a formar de amor entre dois homens, sem apelos que são usáveis quanto o assunto é abordado sobre o tema. aleu a pena ter assistido e recomendo. Ceiça Rocha

    Por Blogger Cei�, às 11 de abril de 2008 14:51  

  • Grande parte desse mérito cabe a Heath Ledger (que de quebra encena o momento mais lindo do cinema nos últimos anos, envolvendo um mísero botão). Esse jovem ator australiano, que até então não tinha demonstrado maior talento, entrega o primeiro grande trabalho de sua vida, que exigiu dele um equilíbrio que dificilmente outro ator de sua idade conseguiria ter. Ennis é o personagem mais complexo e rico de toda a história, de passado sofrido e que sofre com o grande dilema entre seguir a vida considerada normal pela sociedade ou se entregar a grande paixão que nutre por Jack. O trabalho de composição de Ledger para esse trabalho é inacreditável: reparem no tom de voz, no sotaque, na postura dele em cena. Sua performance é tão soberba que ele acaba se sobressaindo sobre Jake Gyllenhaal, que tem um personagem de maior empatia, mas que acaba sendo diluído a partir do meio do filme em situações desnecessárias, como aquela em que entra em cena a intragável Anna Faris. Essas cenas supérfluas, se desprezadas na edição final, trariam bem-vindos quinze minutos a menos na projeção, já que o ritmo do filme fica claudicante em determinado momento.

    Por Blogger Arnaldo, às 12 de abril de 2008 03:47  

  • As vezes me engano com os filmes.Com o passar do tempo,a filmes que ficam cada vez melhores.Entretanto,digamos,a filmes,que são tão emocionantes,que conseguem nos fazer refletir sobre a vida,o que é bem díficil,para pessoas ignorantes.Agora concordemos,um filme que trata de um assunto tão preconceituosamente falado hoje em dia,que recebe uma crítica tão avassaladora,que tem como objetivo alvo,tocar,ensinar,aproveitar o espaço que tal pessoa tem,para querer,pelo menos tentar fazer com que as pessoas entendam que há pessoas normais, que gostam de outras também normais,mais com sentimento tão forte que não se pode resistir.O que é o caso,ou o gênero do filme O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, de 2005.Um filme tão bom ,que foi até o fim a busca do oscar..talvez merecido!!!!.

    Por Blogger Bruno, às 12 de abril de 2008 05:26  

  • Annie Proulx escreveu um dos contos mais originais
    e inteligentes da literatura contemporânea, e, para muitos leitores
    e críticos, “O Segredo de Brokeback Mountain” é a sua obra-prima.
    Ennis del Mar e Jack Twist, dois peões de fazenda, se encontram
    num verão quando estão trabalhando como ovelheiro e coordenador
    num pasto acima da alameda. A princípio, dividindo uma barraca isolada,
    a atração é natural, inevitável, mas algo mais profundo os arrebata
    naquele verão. Ambos dão duro, se casam e têm filhos, porque isso é o
    que os vaqueiros fazem. Mas, ao longo de muitos anos e de freqüentes separações, essa relação se torna a coisa mais importante de suas vidas,
    e eles fazem tudo o que podem para preservá-la. Numa linguagem
    deslumbrante que nos fica na cabeça, Proulx conta a difícil e perigosa
    relação entre dois vaqueiros, que sobrevivem a tudo, menos à
    intolerância violenta do mundo.

    Por Blogger Nazaré, às 12 de abril de 2008 05:28  

  • Maravilhoso esse texto.
    Outra curiosidade:
    Michelle Williams está afastada temporariamente das filmagens de “Blue Valentine”. Os produtores vão interromper as filmagens para que Michelle possa recompor-se da morte de seu ex-companheiro, Heath Ledger. A produção do filme estava prevista para começar no dia 25 de Fevereiro, porém, foi adiada para uma data ainda indefinida. Michelle acabava de terminar a sua última cena no “Mammuth”, na Suécia, quando recebeu a notícias da morte de Heath Ledger.

    Por Blogger Carvalho, às 12 de abril de 2008 11:21  

  • Há 6 ANOS o Iguatemi promove o ABADÓDROMO do Carnaval de Salvador no Shopping Aeroclube. Veja nas imagens do LINK abaixo: CONTRABANDO, PRODUTOS FALSIFICADOS, SONEGAÇÃO DE IMPOSTOS, etc. onde 2 mil pessoas por dia – CAMBISTAS, LADRÕES, TRAFICANTES e pasmem todos os TURISTAS, ficam durante o período do carnaval pisando em FEZES, URINA, RESTO DE COMIDA, LIXO, etc.... Transformando o Shopping Aeroclube em um verdadeiro MANGUE. Qualificado pela imprensa nacional como: AEROBOSTA, AEROPROSTI, AEROLIXO...

    LINK das imagens no YOUTUBE:
    http://br.youtube.com/watch?v=b6keqUNcA7w

    O Sr. EWERTON VISCO, pessoalmente, coordena o ABADÓDROMO, fechando as entradas do shopping com grandes de ferro para o público em geral. Só têm ACESSO EXCLUSIVO os compradores de abadas da Central do Carnaval.

    Todos os lojistas do shopping, neste período, praticamente fecham suas lojas, pois os produtos CONTRABANDEADOS – BEBIDAS, COMIDAS, ROUPAS, etc. são vendidos no estacionamento e é insuportável o mau cheiro das FEZES, URINA e RESTOS de COMIDA PODRE, durante 10 dias de Carnaval.

    Qual o interesse do Sr. EWERTON VISCO em transformar este Shopping Aeroclube em um MANGUE PROSTITUÍDO, repleto de CAMBISTAS e TRAFICANTES ???

    Será que os donos do Iguatemi – Srs. RENATO RIQUE e LUCIANA RIQUE, que são pessoas CIVILIZADAS sabem que a sua MARCA – NACIONAL IGUATEMI, em Salvador, esta cheia de FEZES, URINA, PROSTITUTAS, LADRÕES, etc., etc.

    Por que DESTRUIR e MATAR os LOJISTAS que pagaram luvas e investiram suas VIDAS neste engodo que foi o Aeroclube do Iguatemi ???

    Apesar do EMBARGO da JUSTIÇA FEDERAL, este ano o ABADÓDROMO foi o mesmo mangue de sempre. Basta passar na 9a Delegacia de Polícia da Boca do Rio e verificar as centenas de ocorrências de ROUBOS, ASSALTOS, AGRESSÕES, ESTUPROS, etc.

    Veja nas TERRÍVEIS IMAGENS !!! Não é possível que os DONOS do IGUATEMI saibam deste MANGUE.

    Pela falta de respeito a tudo e a todos e pelo CRIME de DESOBEDIÊNCIA, junto a Justiça Federal, foi solicitado corretamente a PRISÃO dos Srs. EVERTON VISCO e DANIELA BARUCHI.

    Cabe registrar, que as dezenas de processos a serem julgados no MINÍSTERIO PÚBLICO e na JUSTIÇA DA BAHIA ainda não tiveram sentenças. Nesta fase, novas PRISÕES serão decretadas.

    A cidade de Salvador agradece !!!!!!!!!!!! Nossos filhos foram PROSTITUIDOS, DROGADOS e até MORTOS, no Shopping Aeroclube do Iguatemi. Tudo foi filmado e enviado a imprensa e fazem parte dos processos judiciais.

    Por Blogger Eduardo, às 13 de abril de 2008 14:52  

  • O que é que esse texto do Eduardo tem haver com o texto de Brokeback Mountais???? Tem tantos outros post aqui no blog de Elenilson que ele poderia falar sobre problemas sociais,

    Por Blogger Carvalho, às 14 de abril de 2008 04:23  

  • Um excelente filme, embora nem toda a gente tenha capacidade de aceitação, de abordar o tema. Contudo, um bom argumento, boa banda sonora e dois excelentes actores, fazem deste filme um dos melhores que eu já vi.

    Por Blogger Claúdia, às 14 de abril de 2008 06:03  

  • Adoro esse livro.

    Por Blogger rodrigo, às 18 de abril de 2008 06:46  

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